“Então – te escrevi duas vezes: a primeira saiu uma coisa sincera, mas lamentativa demais, um saco. A segunda saiu “madura e controlada”, mas extremamente falsa. Resolvi não mandar nenhuma delas. Não vale a pena falar sobre meus problemas – são muito meus, você não poderia me ajudar. Também não vale a pena fingir um equilíbrio que não tenho. A gente tem que descobrir maneiras – sejam quais forem – de ficarmos fortes.”
— (Caio Fernando Abreu)
“Hoje eu só sinto o gosto do amargo. Um amargo que um dia foi doce. Doce como algodão doce, e tão encantador quanto um jardim florido, e tão belo quanto o céu azulzinho sem nenhuma nuvem. O doce se chamava “dias felizes.” Faz tanto tempo que eu não sinto o doce, que nem sei mais a sensação que ele proporciona. Assustador não é? Eu poderia estar diante da felicidade, porém não a reconheceria. Não sinto o presente também, é como se fosse somente uma palavras para representar o “hoje.” Perdi as contas de quantos dias se passaram. De quantos dias me senti assim, de quanto tempo vivi no escuro, no vazio, sem ninguém para me resgatar desse abismo de palavras confusas. E por fim, não sinto nada. Só o amargo.”
“Cansei de estar cansada de tudo. Cansei de escrever sempre os mesmos textos com palavras diferentes. De tratar as pessoas com um ar de simplicidade que não me convém. De acordar e notar que tudo ao meu redor continua no mesmo. Cansei de ser a amiga em segundo plano, em ser a menina que faz dupla com quem não tem ninguém. De ouvir sempre as mesmas músicas tristes e sempre sofrer pelas mesmas coisas. Inacabável esse sofrimento. Cansei de estar com o coração tão cheio de amargura que não consigo olhar para ninguém com olhos amáveis ou cheio de luz. Cansei de não viver um período tão curto da minha vida, que é o dia de hoje. De sempre mostrar ao mundo o que eu realmente não sou mais, cansei de cansar das pessoas. Pessoas me entendiam. Chegar ao fim do poço e não notar nenhuma moeda, nenhum brilho, nada. Nada que vá acontecer vai me tirar esse cansaço infindo. Cansei de mim. Cansei de você. Dos mesmos livros com histórias felizes, de músicas com o fim triste. Sempre tem o coitadinho que é abandonado, a tola que sofre. Levanta a poeira, ninguém nasceu pra viver extremamente infeliz ou cansado a vida inteira.
Um dia batem na tua porta, e deixa entrar reciprocidade.”